Monday, November 02, 2009

... desde los afectos


Cómo hacerte saber que siempre hay tiempo?
Que uno tiene que buscarlo y dárselo...
Que nadie estabelece normas, salvo la vida...
Que la vida sin ciertas normas pierde formas...
Que la forma no se pierde con abrirnos...
Que abrirnos no es amar indiscriminadamente...
Que no está prohibido amar...
Que también se puede odiar...
Que el odio y el amor son afectos...
Que la agresión porque sí, hiere mucho...
Que las heridas se cierran...
Que las puertas no deben cerrarse...
Que la mayor puerta es el afecto...
Que los afectos, nos definen...
Que definirse no es remar contra la corriente...
Que no cuanto más fuerte se hace el trazo, más se dibuja...
Que buscar un equilibrio no implica ser tibio...
Que negar palabras, es abrir distancias...
Que encontrarse es muy hermoso...
Que el sexo forma parte de lo hermoso de la vida...
Que la vida parte del sexo...
Que el "porque" de los niños tiene un porque...

Cómo hacerte saber que nadie estabelece normas, salvo la vida?
Que autodeterminación no es hacer las cosas solo...
Que nadie quiere estar solo...
Que para no estar solo hay que dar...
Que para dar, debemos recebir...
Que para que nos den también hay que saber pedir...
Que saber pedir no es regalarse...
Que regalarse en definitiva no es quererse...
Que para que nos quieran debemos demostrar qué somos...
Que para que alguien sea, hay que ayudarlo...
Que ayudar es poder alentar y apoyar...
Que adular no es apoyar...
Que adular es tan pernicioso como dar vuelta la cara...
Que las cosas cara a cara son honestas...
Que nadie es honesto porque no robe...
Que cuando no hay placer en las cosas no se está viviendo...
Que para sentir la vida hay que olvidarse que existe la muerte...
Que se puede estar muerto en vida...
Que se siente con el cuerpo y la mente...
Que cuesta ser sensible y no herirse...
Que herirse no es desangrarse...
Que para no ser heridos levantamos muros...
Que quien siembra muros no recoge nada...
Que casi todos somos albañiles de muros...
Que sería mejor construir puentes...
Que sobre ellos se va a la otra orilla y también se vuelve...
Que volver no implica retroceder...
Que retroceder también puede ser avanzar...
Que no por mucho avanzar se amanece cerca del sol...

Cómo hacerte saber que nadie estabelece normas, salvo la vida?


(Desde los afectos, de Mario Benedetti)



(Gracias a ti, Juliana Merçon, pelo presente que foi encontrar este poema, e pelo livro tão cheio de tudo o que há de delicioso nessa vida)


Tuesday, October 14, 2008

Achado

Descobri esta pérola enquanto navegava pela net buscando textos interessantes sobre dança, sobre a relação corpo/dança/potência/feminismo, enfim, sobre o que anda me movendo de uns tempos pra cá. Um blog só de obras clássicas feministas, aqueles livros incríveis que tod@s deveriam ler e que são bem difíceis de achar (muitos deles já sairam de edição).
Compartilho com vocês então!

A Feminista: http://feminista.wordpress.com/


E aqui vai a pasta do 4shared, com estas maravilhas para download:
http://www.4shared.com/dir/1776782/13bc6fe2/sharing.html


Divulguem! Passem adiante!

Sunday, July 06, 2008

Anotações de um depois

Como descrever a sensação de deslocamento na vida, de isolamento, de inadequação com o mundo que nos cerca?

Como descrever sentimentos que parecem indescritíveis, tamanha intensidade?

Como se encaixar num modo de existência tão artificial e tão superficial e por vezes tão absurdo?

Às vezes penso em como é difícil viver, conviver, suportar toda essa realidade um tanto cruel que acontece a nossa volta. E é precisamente em momentos assim - de limite, de pico - que me lembro o quanto preciso escrever. Para fortalecer. E desaguar, senão tudo, boa parte desse muito que me toma de quando em vez.

Vamos tentar, então.

Monday, March 10, 2008

A Descoberta

...

Passam-se os dias. Passam as semanas, os meses, os anos.
Até que um dia aquele casulo invisível, tão cuidadosamente construído, se quebra em pedacinhos.
E o mundo pode, agora, entrar.
E o que era o mesmo passa a ser então – e tão – diferente.

...

Sunday, February 10, 2008

O limbo

O limbo é um lugar estranho. Onde co-existem sentimentos estranhos. Sentimentos-que-não-se-sentem, sentimentos vazios de sentido. Parecemos mortos - estamos? - em contraste com essa aparente vida que nos rodeia. Que insiste em pulsar, que constrói mundos, que cria universos inteiros.

No limbo, o nada. Nada que valha a pena ou que faça o corpo emergir. Ou reagir. Nada que permita despertar sensibilidades-outras, sensações que nutrem e libertam, nada que possa saciar a sede do desejo. A vontade e o desejo de desejar.

A vida (ahh, a vida!)... Saudades da vida e de sua potência. Saudades da vida como ela deveria ser. Como ela deve ser. Como sei que é.

Saudades de uma saúde na vida. Saudades do pulso que pulsa.



(*Porque preciso escrever em momentos góticos de vida-limbo. Se não escrevo, se não flui, enlouqueço.)

Wednesday, June 20, 2007

Vontades


Tempo (Adélia prado)


"A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome."




Você tem fome de quê? Quais são suas vontades? O que suas vontades dizem sobre você?


Perguntas que andam me interessando ultimamente.

Friday, March 02, 2007

Bendita falha! (ou 'a beleza das cicatrizes')


FALÍVEL, adj. 2 gen. Que pode falhar; que se pode enganar; em que se pode haver erro.


Conversando dia desses com amigas queridas, surgiu uma questão que há muito me intriga e que não cansa de tirar o meu sono: a de sermos, antes de mais nada, seres "falíveis". Nos enganamos o tempo todo. Nos contradizemos sem querer, dizemos coisas que às vezes não sentimos, sentimos coisas que às vezes não dizemos. Erramos os termos, o tom, agimos sem pensar, pensamos sem agir. Podemos até questionar os conceitos institucionalizados de perfeição, mas lá estamos nós nos policiando para chegar o mais próximo de um suposto ideal de ser e de estar no mundo... E sofremos depois inquiet@s quando algo sai diferente do planejado, quando pedaços não-domados (e assujeitados) de nós mesm@s resolvem dar as caras e impor sua existência. E com eles, temos o espetáculo da vulnerabilidade humana...

Somos seres frágeis e vulneráveis, então. E falhamos, tentando (ou não) acertar. Falhamos? Mas por que pensar o mundo em termos de 'acertos' ou 'erros'? Será que não seria possível pensar em uma existência sem tantos radicalismos? Sem esses extremos? Sem essa esmagadora e despotencializadora (auto)crítica?

Prefiro acreditar na riqueza destes supostos erros de percurso, na beleza de se enxergar human@-mortal-imperfeit@. Me parece mais rico e belo pensar o mundo como um lugar onde se pode existir de uma maneira mais leve e tranqüila, acolhendo nossas inseguranças e fraquezas (ao invés de renegá-las, ou fingir que elas não existem), admitindo que estamos construindo nossa existência dia após dia, aprendendo com o que a vida nos vai oferecendo e tentando tirar proveito de cada experiência vivenciada. Sem fórmulas prontas, sem manuais de instrução, sem cartilhas de um modo ideal de se existir. Enxergando toda a beleza das nossas tão humanas imperfeições. A beleza e o potencial das nossas cicatrizes.



Tuesday, January 02, 2007

Pequeno diálogo para começar o ano

- Já estou ficando com saudades de escrever no blog. Mais uma vez. De vez em quando me vem essa vontade, e ela vem forte.
- E por que então não escreve?
- Ah, porque não é assim que funciona pra mim! Percebi que não consigo escrever de qualquer jeito, sobre qualquer coisa. Quero escrever sobre questões que me inspirem, que me movam, que façam diferença na minha vida. Não consigo escrever só por escrever. E ando meio sem inspiração por esses tempos.
- Humm, entendo... Então você quer voltar a escrever aqui, está sentindo falta, mas não consegue pensar sobre o quê?
- É isso mesmo. Mas um dia me aparece alguma idéia. E aí então eu volto.

Sunday, September 17, 2006

Chuva

E eis que, finalmente, vem a chuva.

E com a chuva, aquele cheiro delicioso que fica no ar, e que nos invade e nos revolve e nos conforta.
Em um só instante nos transformamos. Como um feitiço que acontece e pronto, sem maiores porquês. Voltamos à infância. Voltamos à um tempo onde havia vida em tudo. Viajamos no tempo. Uma certa nostalgia dos momentos que se foram, às vezes com tristeza e saudade.
Mas com a sensação de que nunca estivemos mais agora no mundo.
Como se fôssemos obrigad@s a nos sentir, a não escapar de nós mesm@s.
Somos modificad@s pela chuva. Quimicamente alterad@s pela chuva.
Mais sensíveis e mais presentes, enfim.
E mais viv@s.



Espero que essa chuva seja o prenúncio do fim da seca em Brasília. Não aguentava mais...

Saturday, July 15, 2006

Algumas propostas: exercícios pra vida

No post anterior propus a escrita como exercício para a vida, como uma tentativa de jogar sugestões e idéias interessantes para serem publicadas por aqui. Daí o título deste post: dando continuidade à proposta, aqui vão algumas impressões e observações do que andou me chamando a atenção nos últimos tempos. Ahh, é apenas um exercício, não pretendo ir muito além disso, apenas chamar a atenção para algumas questões!



Primeiro Exercício

Pensar em como andam nossos afetos. Pensar os afetos como nos propõe Deleuze (retomando Espinoza), afetos como vontades, como potências de vida.

A quantas andam as nossas vontades?

Vem-me à cabeça, quase imediatamente, uma fala do filme “Waking Life” (para quem ainda não viu, vai aí a dica: apesar de verborrágico e um pouco cansativo, tem sacações bem legais a respeito da questão ‘sonho versus realidade’, e da nossa relação com o mundo).
Diz o seguinte: “O desafio é o de nos libertarmos do negativo, que nada mais é do que a nossa própria vontade do nada. Uma vez tendo dito sim ao instante, a afirmação é contagiosa. Ela explode numa cadeia de afirmações que não conhece limites. Dizer sim ao instante é dizer sim à toda a existência.”

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Segundo Exercício

Pensar nas relações que estabelecemos com os outros. Como nos relacionamos com o mundo, e que mundo é esse que queremos ajudar a construir. Que relações materializamos em nossas práticas diárias?

Novamente me vem à cabeça outra cena de “Waking Life”.

Nessa cena, o rapaz está caminhando pela rua, quando de repente esbarra numa garota, que vem caminhando na direção oposta. Ao se cruzarem , e se esbarrarem, os dois, num primeiro momento, agem como comumente agimos em situações como esta: mal se olham e continuam suas respectivas trajetórias.
Mas logo em seguida, a menina pára e se volta para o rapaz, dizendo: “Podemos começar de novo? Sei que não nos conhecemos, mas eu não quero ser uma formiga, sabe? É como se passássemos pela vida esbarrando uns nos outros, sempre no piloto automático, como formigas, não sendo solicitados a fazer nada de verdadeiramente humano. ‘Pare’. ‘Siga’. ‘Dirija ali’. Todas as ações voltadas basicamente para a sobrevivência, toda comunicação servindo para manter ativa a colônia de formigas, de um modo eficiente e civilizado. ‘Aqui está seu troco’. ‘Crédito ou débito’? ‘Aceita ketchup’? Eu não quero um canudo!! Quero momentos humanos verdadeiros. Eu quero ver você. Eu quero que você me veja. Eu não quero abrir mão disso. Eu não quero ser uma formiga, entende?”
O rapaz responde: “Sim, eu também não quero ser uma formiga. Obrigado pela sacudida. Tenho andado feito um zumbi, no piloto automático. Eu não me sinto como uma formiga, mas provavelmente pareço uma. D.H. Lawrence teve a idéia de duas pessoas se encontrarem, e, ao invés de apenas passarem, elas aceitarem ‘o confronto entre suas almas’. É como libertar os deuses corajosos e inconseqüentes que nos habitam.”
Ela arremata: “Então parece que já nos encontramos!”
A cena termina com os dois apertando suas mãos, e saindo para trocar idéias.


Linda essa cena. Adorei assim que vi. E já vi várias vezes, e adoro sempre. Nos traz questões, nos faz pensar. Pensar em como estamos vivendo, nos relacionando com as pessoas que nos cercam, que afetos e vontades estamos trazendo para perto, que escolhas fazemos, que caminhos queremos traçar. Não acredito que possamos estar atent@s para tudo o tempo todo, num mundo repleto de gente e de informações circulando freneticamente por aí; acabamos selecionando, acabamos dispers@s, perdid@s no meio disso tudo. Mas creio que esse possa ser um bom exercício de vida também: o de ficar atent@. Deixar de viver no piloto automático e ficar atent@. Tentar o contato, tentar, na medida do possível, cultivar relações. Perceber suas variações, suas texturas, analisar suas qualidades, seus possíveis benefícios e, também, identificar através de nossas sensibilidades as possíveis más conseqüências de más escolhas. Se abrir para o mundo, se cuidando, sempre, mas atent@ ao que de melhor pode haver nessa vida: as vontades que fazem bem, que nos fazem crescer e que nos permitem criar.

Tuesday, June 06, 2006

De repente

De repente senti um vazio. Um vazio que já senti muitas vezes, que de vez em quando aparece e me pega de surpresa. Um vazio de existir. Sabe aqueles momentos em que se sente um cansaço profundo, e parece que a vida perde o sentido, transformada que é em uma sucessão de dias repetitivos e aparentemente inúteis? Dias em preto-e-branco, ou pior, em tons de cinza. Nada muito grave, mas vazio. Feito céu sem lua ou sem estrelas, feito comida sem tempero, sem graça, vida sem sal. Pensando bem, é muito grave, sim. Sensação de falta, de ausência, como se eu não estivesse dentro de mim. Só um corpo, vagando por aí, resolvendo algumas coisas e adiando outras. Ausente de si.

Aí me veio uma vontade louca de reagir. Tentar colocar algum sentido nisso tudo, despertar desejos adormecidos, criar desejos outros, retomar projetos que ainda existem dentro de mim e construir novos. Inflamar a existência. Transformar a vida, se libertar de vez das couraças internas que prendem e que sufocam tanto. Efetivar, continuar enfim, um processo já iniciado, e que não tem mais volta. (Já venho pensando e lendo muito sobre isso há um bom tempo, sobre esse ‘reconstruir-se’, esse ‘refazer-se’ mais leve, mais livre e mais autônomo.)

Liberdade para ser, para existir, para escolher, confiando na materialidade e na importância de nossa existência. Quer coisa melhor? Se abrir para a vida, para o mundo. Para todas as suas possibilidades interessantes, que podem ser tantas. Com uma ajudinha do Deleuze e da Suely Rolnik, claro, de suas filosofias que inspiram tanto à vida, porque afinal ninguém é de ferro e constrói tudo sem alguma forcinha.

E sim, sim, voltar a postar por aqui é um dos frutos dessa reação. Tentando alguma regularidade, para que a energia possa continuar circulando, para não estagnar. Sair do lugar. Sair do mesmo. Propor algumas questões, ou simplesmente expressar alguns pensamentos, jogar idéias pro mundo. Voltar a escrever, sem compromisso ‘formal’, só por prazer, só por exercício de vida. Dar vida às palavras, para que elas, em troca, ajudem a dar sentido à minha vida.

Espero que dê certo.




P.S. Aproveito para agradecer a@s amig@s querid@s e alguns de seus posts mais do que inspiradores. Seus textos bonitos e sensíveis me mobilizam, me tiram do lugar. Obrigada! Saibam que os endereços de seus blogs continuam carinhosamente salvos em ‘meus favoritos’, e que farei o possível para visitá-los com alguma regularidade. Beijos à tod@s!

Sunday, January 08, 2006

Dias de sol e mar

Viagem de férias. Duas semanas de sossego, uma praia longe de tudo, quase deserta. Ahh, como descrever tais sensações?

Um céu azul imenso, que parece não ter mais fim, e que a noite fica carregado de estrelas que também parecem não ter mais fim. O vento com cheiro delicioso que vem do mar, e invade nossos sentidos. O gosto de sal no corpo. O contato quente e macio da areia na pele. O efeito hipnótico de ficar observando o vai-e-vem das ondas, que nos obriga a pensar sobre a transitoriedade de tudo na vida. As risadas descontraídas das pessoas em volta; música boa pra animar e pra relaxar.

A maravilha de mergulhar e descobrir montes de peixinhos multicoloridos, e de se sentir dentro de um aquário gigante. Caminhar pela praia olhando o horizonte, parando pra admirar a paisagem sempre que dá vontade. Dormir na rede depois do almoço, embalada pelo barulho gostoso da mudança das marés. Vencer o medo e entrar na água já de noite, onde o mesmo parece tão diferente.

Esquecer, por alguns dias, palavras como 'cumprimento de prazos', 'obrigações' e 'prestação de contas'. Isolamento. Distância de um cotidiano às vezes exaustivo e sem sentido. Viver o instante, conseguindo por vezes afastar o pulsante encadeamento de imagens, idéias e pensamentos que trazemos conosco. Um pouco de paz.

O prazer de acordar, abrir a janela e sentir que não há nenhum outro lugar melhor para estar do que ali. A percepção de que somos muito pequenos diante de tanta beleza, que está em toda parte e que nos envolve por inteiro. Uma alegria diferente, tranquila, suave, despretenciosa. Um bálsamo pro corpo e pra alma. A recarga das energias para mais um ano que acaba de começar. Feliz ano novo!!

Tuesday, November 15, 2005

Divagações de uma Pollyana incurável

Ando pensando ultimamente em como a nossa existência no mundo é política, e como ela pode contribuir (ou não) para a construção de 'realidades' diversas, mais leves, mais plurais, mais centradas na harmonia e no respeito entre as pessoas.Até que ponto podemos interferir e mudar o coletivo a partir de nossas, ainda que pequenas, atitudes individuais?

Considerando que toda ação pressupõe uma reação, e que a soma de todas as vivências particulares é que configura o todo, penso na importância de nosso "estar no mundo", de nossos posicionamentos, de nossos atos, que por menores e mais corriqueiros que pareçam podem se tornar responsáveis pela materialização desta suposta realidade que nos cerca. E creio que é neste mesmo 'estar no mundo' que podemos promover mudanças bem interessantes nos espaços onde atuamos.

A maneira com que interagimos com as pessoas (em qualquer tipo de situação a que somos expostos cotidianamente), acredito, pode ser determinante em termos de feedback. Pensar desta forma é acreditar efetivamente na possibilidade de um mundo melhor (ou menos pior!), onde a diversidade pode existir desde que pensemos o respeito às diferenças como princípio de base. Será que é tão difícil assim?

Dentre as minhas pretensões futuras está a criação de uma ONG feminista, para tentar diminuir (ainda que localizadamente) um pouco da violência fundamentada nas desigualdades de gênero que tão facilmente encontramos por aí. Mas pretendo também sempre manter o posicionamento político de que o modo com que, diariamente, interajo com as pessoas com as quais convivo, pode me trazer muito deste mundo que pretendo ajudar a construir!

Wednesday, September 21, 2005

Diários (...)

Ando lendo por esses dias os diários que uma das minhas escritoras favoritas, Sylvia Plath, escreveu durante seu curto período de vida (ela se suicidou bem novinha, por volta dos trinta anos). E tem sido muito bom...
Saber quais questões a interessavam, como ela pensava e sentia o mundo (e entender um pouco como era o cotidiano de uma garota há 50 anos atrás!), ainda por cima narrado de maneira tão simples e bela, tem sido muito inspirador para mim. Tanto que resolvi retomar este hábito, esquecido desde a adolescência: o de escrever num caderno as impressões do momento.
Não precisa ser todos os dias, nem sobre nada de concreto: apenas descrever, como em uma espécie de transe, as sensações e pensamentos que estiverem aflorando na mente...
Mais ou menos como muitos fazem em seus blogs...
O meu diário, até segunda ordem, permanecerá impublicável (hehehe!). Mas vou deixando por aqui (nos próximos posts) alguns dos trechos que mais gostei do que já li nos escritos da Sylvia Plath.
Ah! E continuem sempre escrevendo, pensando, criando, transformando, movendo esse mundo...

Tuesday, September 20, 2005

Um pouquinho de Sylvia Plath...

"... Para que serve minha vida e o que vou fazer com ela? Não sei e sinto medo. Não posso ler todos os livros que quero; não posso ser todas as pessoas que quero e viver todas as vidas que quero. Não posso desenvolver em mim todas as aptidões que quero. E por que eu quero? Quero viver e sentir as nuances, os tons e as variações das experiências físicas e mentais possíveis de minha existência. E sou terrivelmente limitada. Contudo, não sou cretina: incapaz, cega, estúpida. Não sou um ex-combatente a passar os dias na cadeira de rodas, sem os braços e as pernas. (...) Tenho muita vida pela frente, mas inexplicavelmente sinto-me triste e fraca. No fundo, talvez se possa localizar tal sentimento em meu desagrado por ter de escolher entre alternativas. Talvez por isso queira ser todos - assim, ninguém pode me culpar por ser eu. Assim, não precisarei assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento do meu caráter e de minha filosofia. As pessoas são felizes --- se isso quer dizer contentar-se com seu quinhão: sentir-se confortável como o pino redondo complacente que se insere num orifício circular, sem arestas incômodas ou dolorosas - sem lugar para reflexões e questionamentos. Não me contento, pois meu quinhão é limitador, como o de todo mundo. As pessoas se especializam; acabam por se dedicar a uma idéia; as pessoas 'se encontram'. Mas o próprio contentamento que vem de você se encontrar é obscurecido pela constatação de que, ao fazê-lo, não só admite ser esquisita, mas um tipo específico de esquisita."


"... Frustrada? Sim. Por quê? Porque me é impossível ser Deus - ou a mulher-e-homem universal - ou muita coisa. Sou o que sinto e penso e faço. Quero expressar meu ser tão completamente quanto possível, pois de algum canto tirei a idéia de que posso justificar meu estar viva desse modo. Mas, para expressar o que sou preciso ter um padrão de vida, um ponto de partida, uma técnica - para realizar a organização arbitrária e temporária de meu mísero e patético caos pessoal. Mal começo a me dar conta do quanto deve ser falso e provinciano esse padrão ou ponto de partida. E é isso que é tão duro de encarar, para mim."


"- Para mim, o presente é para sempre, e o eterno está sempre mudando, fuindo, se dissolvendo. Este segundo é vida. E quando passa, morre. Mas você não pode recomeçar a cada novo segundo. Tem de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça... invencível desde o início. Uma história, uma imagem, pode reviver algo da sensação, mas não o bastante, não o bastante. Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, há cem anos, viveu como eu vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O momento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some, contínua areia movediça. E eu não quero morrer."

Sunday, September 18, 2005

Mais um pouquinho...

"Creio haver gente que pensa como eu, que pensou como eu, que pensará como eu. Haverá aqueles que viverão ignorando minha existência mas darão seguimento à minha atitude, como eu, por assim dizer, dou sem saber continuidade à atitude similar dos que vieram antes de mim. Posso escrever mais e mais. Basta um movimento da mão em resposta ao impulso cerebral, treinada desde a infância a registrar em nosso próprio sistema hieroglífico as translações dos estímulos externos. Quanto de meu cérebro pertence à minha vontade? Quanto não passa de um endosso do que li, ouvi e vivi? Claro, realizo uma espécie de síntese do que me acontece, mas isso é tudo que me diferencia de outra pessoa? --- Que eu topei com várias coisas e as assimilei? Que meu ambiente e uma combinação fortuita de genes me troxeram até onde estou?"

- - -

"Deitada de bruços sobre a rocha plana quente, largo o braço de lado e a mão acaricia os contornos arredondados da pedra aquecida pelo sol, tateio suas ondulações suaves. Tanto calor há na pedra, tanto calor áspero e confortável, que eu sinto que poderia ser um corpo humano. Espalhando-se pelo meu corpo, através do tecido do maiô, o calor intenso chegava a queimar, os seios doíam contra a pedra dura e plana. Um vento úmido e salgado soprava, tornando meu cabelo pegajoso; por entre os cachos brilhantes eu via os reflexos azulados do oceano. O sol penetrava por todos os poros, saciando cada músculo dentro de mim com sua paz dourada luminosa. Estendida sobre a rocha, corpo tenso, depois relaxado, no altar, eu sentia como se estivesse sendo deliciosamente violada pelo sol, penetrada pelo calor do deus da natureza, impessoal e colossal. Morno e perverso era o corpo do amante sob o meu, a impressão de sua pele gasta era incomparável a qualquer outra - nem macia, nem maleável, nem molhada de suor, mas seca, rija, limpa e pura. Alta, branca como os ossos, eu havia sido lavada pelo mar, depurada, batizada até ficar torrada e seca pelo sol. Como alga marinha, crocante, punjente, cheirosa - como pedra, arredondada, curva, oval, limpa - como vento, picante, salgada - como tudo isso era o corpo do meu amante. Um sacrifício orgíaco no altar da rocha e do sol, e eu saí resplandescente, imaculada e saciada do fogo ardente de seu desejo intemporal e vago."

Thursday, July 28, 2005

Foto-arte-feminista

Acho Barbara Kruger o máximo. Aqueles que convivem comigo provavelmente já me ouviram falar dela. O trabalho desta artista plástica americana vem tomando minha atenção nos últimos meses, nos quais gastei boa parte do meu tempo pesquisando a seu respeito. Separei os sites mais legais, baixei algumas fotos, encomendei livros que contam sua tragetória e sua atuação política, enfim: tudo o que uma verdadeira fã tem direito. Uma fã meio freak, sem dúvida, mas bem intencionada (quero escrever sobre ela algum dia...).
Feminista pós-moderna como poucas artistas que já conheci, Barbara questiona em suas foto-montagens a suposta "essência" dos indivíduos, principalmente no que diz respeito à tão proclamada 'condição feminina' em nossas sociedades. Através de frases de impacto colocadas sobre imagens muitas vezes violentas, ela coloca o dedo na ferida e nos obriga a pensar sobre nós mesmos, sobre nossa materialidade, sobre nossa relação com o mundo. Nos mostra o quanto somos construídos, como somos de fato produtos sociais, muito mais efeitos do que sujeitos absolutos de nós mesmos.
Estou completamente fascinada pelo seu trabalho, e tudo o que eu mais queria eram vários posters com suas fotos pregados na parede da minha querida casinha...
Quem sabe um dia?!
Enquanto isso não acontece, deixo aqui pra vcs conferirem algumas das minhas obras favoritas:































Wednesday, June 29, 2005

Manhã de quarta

Na sala de espera, de frente para as secretárias, sigo aguardando com sono e falta de paciência a minha vez. Passados seis meses estou de volta a este lugar, onde já reconheço as pessoas, os procedimentos, onde já posso quase prever o que virá a seguir...

Fico esperando por mais de uma hora até chamarem meu nome. Entro em seguida no corredor principal e sou encaminhada para uma outra salinha, onde me pedem para vestir algo parecido com uma bata de algodão, e tirar todos os metais que tiver no corpo. Sento em um banco gelado ("aguarde só mais um pouquinho!") e passo o tempo olhando o que está a minha volta. Nada parece ter mudado muito. Alguns armários enfileirados, uma pia de inox, uma cadeira de rodas, uma maca com lençóis dobrados em cima. E o banco gelado de aço em que espero sentada.

Mais meia hora vai passando, demorada. Penso no que poderia estar fazendo esta manhã, e não chego a grandes conclusões. Penso também em quais serão os resultados desta vez, e logo tento afastar os pensamentos folheando a revista que me deram para ler.

Finalmente a assistente entra, e sou levada para a sala ao lado, meio escura, onde uma cápsula enorme me espera. Os médicos (vejo-os através de uma janela de vidro), entretidos junto a seus computadores, mal parecem notar minha presença. A assistente pede para que eu me deite e fique absolutamente imóvel. Absolutamente imóvel ("por favor!"), por aproximadamente uma hora. De olhos fechados, respiração bem tranquila e tudo o mais que for necessário para que eu não me mexa, "senão todo o exame estará perdido e teremos que recomeçar de novo!".

A cerimônia tem início. Meus ouvidos são tampados com um fone para que eu não me assuste com os barulhos intensos que virão a seguir. Minha cabeça é amarrada para que eu não a mova involuntariamente. Um cobertor colocado sobre meu corpo me mantém aquecida. E sou, enfim, arrastada para dentro do casulo de metal... Onde pensamentos incertos e divagações sobre o futuro começam a ecoar dentro de mim, no mesmo ritmo destas vibrações que agora ressonam e mapeiam o meu cérebro. E que me me fazem lembrar de um passado que acreditei já ter conseguido esquecer...

Tuesday, June 14, 2005

Escolhas

"Pois preciso saber exatamente isto: estou sentindo o que estou sentindo, ou estou sentindo o que eu queria sentir? ou estou sentindo o que precisaria sentir?
Porque não quero mais sequer a concretização de um ideal, quero é ser apenas uma semente. Mesmo que depois, dessa semente, nasçam de novo os ideais, ou os verdadeiros, que são um nascimento de caminho, ou os falsos, que são os acréscimos. Estaria eu sentindo o que desejaria sentir? (...)"

Clarice Lispector parece traduzir como ninguém as angústias dos momentos de crise, dos rompantes em que questionamos nossas próprias escolhas...
Crise existencial?
No meu caso, é mais uma crise de objeto mesmo...


(e a qualificação vem se aproximando...)

Sunday, June 12, 2005

A Gênese (ou o princípio do caos...)

E eis que aqui me encontro: finalmente rendida aos prazeres do mundo cibernético.

Exposta à todos que acessarem esta página, onde encontrarão postadas algumas das inquietações e desejos que assombram meus pensamentos...

O começo. O início de uma atividade que, segundo alguns queridos amigos, vicia e liberta.

Que assim seja!

Sejam bem-vindos ao meu blog.